Sarampo na RMSP

Situação Epidemiológica do Sarampo na Região Metropolitana de São Paulo: Vigilância e Imunização

O ObservaSaúde promoveu o webinário Situação Epidemiológica do Sarampo na Região Metropolitana de São Paulo: Vigilância e Imunização no dia 21 de setembro transmitido pelo canal Youtube da Faculdade de Saúde Pública da USP, e pode ser visto no player abaixo ou no canal da FSP* (*aguardando publicação).

Depois de anos sem casos de sarampo, a ocorrência de 32 casos confirmados em julho e agosto de 2026, nas cidades de Sã0 Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos motivou o eixo temático Condição de Vida e Saúde, do ObservaSaúde, a organizar o webinário. O evento contou com a participação do Cosems SP, da CVE Coordenação da Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, da Covisa Coordenadoria da Vigilância Sanitária, da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo e de docentes da Faculdade de Saúde Pública FSP USP. O objetivo do webinário foi divulgar e discutir com os especialistas a situação epidemiológica e as medidas envolvendo a vigilância epidemiológica e as medidas para o aumento da cobertura vacinal.

O evento foi coordenado pela Profa. Andreia Garbin, da FSP USP, com a apresentação de Brigina Kemp, pelo Cosems SP, de Mariana Araújo pela Covisa SMS, de Ana Lucia Frugis Yu pela CVE SES e por Ana Paula Sato, também da FSP USP. Pelo ObservaSaúde participaram a Profa. Marília Louvison, da FSP USP e coordenadora do Observatório junto à Faculdade, o Prof. Álvaro Escrivão Júnior e o Prof. Eliseu Waldman, coordenadores do eixo temático de Condições de Vida e Saúde, e Eduardo Izumino atual Secretário Executivo do ObservaSaúde.

Pelo Cosems SP Brigina Kemp, assessora técnica para a área de Vigilância do Conselho de Secretários Municipais de Saúde de São Paulo, na sua apresentação intitulada Sarampo e coberturas vacinais: o que os territórios nos revelam falou sobre as particularidades do sarampo e das coberturas vacinais, no estado de São Paulo. O sarampo, como se sabe, é uma doença altamente transmissível, pode levar a óbitos mas é prevenível pela vacinação. Brigina discorreu sobre os aumentos paulatinos da cobertura da vacinação, chegando à eliminação de casos em 2016, mas que com a queda da cobertura ocorreu a volta dos casos em 2019, com nova eliminação certificada em 2024 mas com o retorno da doença no surto atual. O surto atual, porém, ocorre num contexto de recuperação da cobertura, que após um pico de 95% em 2015 chegou a apenas 75% em 2022. Alertou para a importância da homogeneidade da cobertura nos diferentes territórios, que podem variar bastante e que podem formar bolsões de pessoas suscetíveis, e nesse movimento, de ressaltar a importância da segunda dose da vacina tríplice viral e da homogeneidade dessa dose. Lembrou da necessidade de 95% de cobertura com duas doses para eliminar a doença e da  importância de evitar a ocorrência de grupos suscetíveis dentro dos municípios. Portanto, o objetivo deve ser uma cobertura alta, homogênea e sustentada. Brigina apontou que o Cosems SP se empenha na mudança dos municípios do modelo ‘esperar’ para o modelo ‘buscar’, com a vacinação sendo um ponto de um processo contínuo, tornando o território o espaço de vacinação, e a importância do microplanejamento, ferramenta para transformar a informação em ação no território.

A seguir, Mariana Araújo, coordenadora da Coordenadoria de Vigilância em Saúde da SMS São Paulo Covisa, gestora das campanhas de imunização e combate a endemias na capital paulista, trouxe uma apresentação com o título Situação Epidemiológica do Sarampo e atividades de resposta rápida no município de São Paulo onde discorre sobre a organização em territórios da vigilância em saúde no município, e onde ocorreram exatamente os casos do surto atual. Mariana apresentou dados da situação epidemiológica, com os casos nas semanas epidemiológicas e que totalizam 32 casos confirmados na cidade de São Paulo, e como a partir da percepção do surgimento de casos as equipes se prepararam para o aumento de casos, que vieram a ocorrer. Não houve nenhum óbito e o número de casos confirmados não vem subindo nas semanas recentes. Mariana mostra mapas que demonstram a concentração de casos na zona norte, muito embora o esforço de vigilância de casos suspeitos seja para cidade inteira. A distribuição dos casos por faixa etária e sexo demonstra concentração em menores de 1 ano de ambos o s sexos, com metade dos casos, o que já indica o alvo de esforços para a vacinação. Essa situação motivou a vacinação ‘dose zero’, isto é, em crianças de seis meses a 1 ano, que não estavam sendo vacinadas rotineiramente nessa idade. Mariana mostrou um boletim diário, utilizado pela SMS, com os principais dados do surto de sarampo, que por exemplo mostrou no dia 18 de setembro 1.518 casos notificados, 32 confirmados e 657 sendo investigados. Os dados também possibilitaram a identificação das cadeias de transmissão, que contam 10 cadeias de transmissão até o momento. Mariana mostrou que a preparação de resposta ao surto começou mesmo antes da ocorrência do surto atual, no mês de abril de 2026, com capacitação sobre notificações compulsória, incluindo o sarampo, e várias outras atividades, incluindo colaboração com a Secretaria municipal de educação e a vacinação indiscriminada em ampla campanha, que durou aproximadamente um mês. Como parte dos esforços ocorre a busca ativa institucional, a revisão de CIDs diferenciais, e a busca ativa comunitária nos territórios da UVIS da Vila Maria, com 24 equipes visitando mais de 6 mil residências e 15,8 mil entrevistados, com 13 casos suspeitos identificados e notificados. Sobre o tema da imunização, Marina detalha que foram aplicadas desde janeiro mais de 2,5 milhões de doses, sendo que só no chamado dia D (22 de agosto) foram 268 mil doses no município de São Paulo. Na atividade demominada Limpeza/Varredura foram atendidas 186 mil pessoas em 134 mil imóveis, com 72 mil doses aplicadas – e 12 mil recusas. As pessoas que recusam são reabordadas. Além disso foram feitas operações para imunização de trabalhadores de hotéis, motoristas de táxis e uber etc. Foram também realizadas atividades de imprensa/comunicação. 

Dra Ana Lúcia Yu, veio representando a CVE Centro de Vigilância Epidemiológica Alexandre Vranjac, do Estado de SP, falando sobre a Situação epidemiológica do sarampo na região metropolitana de São Paulo: vigilância e imunização. A palestrante trouxe dados mundiais (Opas), por exemplo, de 52,6 mil casos nas américas, acumulado de 2026, com 61 óbitos. O Brasil está no cenário de “cadeias de transmissão identificáveis, transmissão limitada”, com foco em contenção, sendo que a importação de casos gerou cadeias de transmissão ainda identificáveis com o rastreio de contatos factível. Na região metropolitana de São Paulo, além dos casos identificados na capital, foram 2 em São Bernardo do Campo e 1 em Guarulhos, e 1 caso em análise em Santo André, até a semana epidemiológica 38/2026. No Brasil, foram confirmados 41 casos até a mesma data. Segundo Ana, São Paulo corre riscos por ser um hub de voos, por ser um centro de mobilidade e eventos, pela densidade urbana e pela suscetibilidade imunológica (existência de bolsões com cobertura vacinal menor que 95%, esquemas vacinais incompletos e hesitação vacinal). Tais condições se relacionam com o surto de 2019/2020, onde 80% dos casos do Brasil se concentraram em São Paulo, atingindo quase 300 municípios, e com 18 óbitos em 18 mil casos. Prosseguindo na comparação do surto atual com o de 2019, verifica-se até o momento que no caso atual são muito menos casos, concentrados na região metropolitana, atingindo crianças menores de 2 anos, em cadeias delimitadas de diferentes ambientes, com predomínio de não vacinados e crianças não elegíveis. O principal risco agora seria o de uma expansão metropolitana, a partir de bolsões de suscetíveis. Dra Ana também informou as ações implementadas no nível estadual, abrangendo coordenação e gestão da resposta, com ativação da resposta estadual, alinhamento técnico (entre GVEs, municípios e Ministério da Saúde), normatização das ações; Vigilância Epidemiológica, abrangendo detecção (foco na detecção precoce) e investigação, inovação, busca ativa e monitoramento e avaliação. Além disso também ações de fortalecimento da Vigilância Laboratorial, prescrevendo agilidade no processamento, integração de dados, análise genômica, refinamento diagnóstico e fortalecimento da BAL, e ações para a Articulação interinstitucional, abrangendo articulação permanente com diversas instituições e parcerias estratégicas, além de articulação com instâncias de pactuação e assessoramento. Continuando, ações de comunicação de risco, com emissão de alertas, realização de webconferências e formações, divulgação de orientações, produção de materiais técnicos para os serviços e população, combate à hesitação, com campanha para tirar dúvidas e combater notícias falsas. No campo da imunização, as ações foram no sentido da intensificação das estratégicas de imunização: bloqueio e varredura, nos locais de exposição, com vacinação de contatos e profissionais de saúde; Dose zero; vacinação indiscriminada; acesso e territorialização (microplanemento, extensão do horário das salas de vacina, vacinação em escolas etc.).

Professora do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública, Ana Paula Sato a seguir apresentou uma fala com o título Queda das Coberturas Vacinais: Entre as Fragilidades do Acessos e os Desafios da Hesitação Vacinal. Ana trouxe o primeiro conceito da hesitação vacinal: atraso ou recusa de vacinas recomendadas, apesar de sua disponibilidade nos serviços de saúde, que é da OMS (2014), observando se tratar de um “fenômeno comportamental complexo e específico ao contexto”, e que também se trata de um espectro, que vai da aceitação total até a recusa total, passando pela aceitação de algumas, recusa de algumas, e atrasos. Detalhando esses aspectos do conceito, aparecem também a confiança, a conveniência e a complacência diante das vacinas e da vacinação. E a partir disso surgem ainda mais modelos, levando em conta outros aspectos da hesitação vacinal. Ainda sobre o conceito, envolve pensar em como medir a hesitação vacinal, e os fatores que fica ou podem ficar ocultos, como dificuldade de acesso, falhas do sistema de saúde e barreiras estruturais. Em 2022 a OMS trouxe um novo conceito, em que relaciona os determinantes sociais e comportamentais da vacinação, e que atribuem a hesitação vacinal como um dos quatro domínios que determinam o recebimento da vacina. A hesitação vacinal entra no domínio da motivação, que é a intenção de receber as vacinas recomendadas e que se relaciona com a percepção de risco da doença e da confiança na vacina, seus benefícios e sua segurança. A hesitação seria a não motivação, que pode ser influenciada por questões práticas (disponibilidade, custo, acesso, qualidade do serviço, respeito dos profissionais). Ou seja, a hesitação vacinal se dá, para a OMS, num quadro mais amplo. A definição de hesitação vacinal em 2022 é a de “um estado motivacional de estar em conflito sobre a, ou de se opor à, vacinação; isso inclui intenções e disposição”. O novo conceito diferencia a hesitação vacinal da confiança, separa a motivação da hesitação vacinal do comportamento resultante, e implica que comportamentos e seus determinantes devem ser medidos de forma separada. Portanto o estudo da hesitação não é somente trabalhar o aspecto da recusa, mas o aspecto mais amplo entre a aceitação e a recusa. Os crescentes estudos apontam que a percepção do risco da doença e da confiança na vacina, no programa de imunizações, na indústria farmacêutica e no sistema de saúde que recomenda essa vacinação como aspectos bastante importantes na hesitação vacinal. Alguns estudos colocam a hesitação vacinal num contexto de identidades e de estilos de vida mais amplos, o que enfatiza a questão dos processos sociais. Após a pandemia de Covid-19 temos também o surgimento da polarização política e a desconfiança nas próprias instituições de saúde e na ciência. Em pesquisa realizada pelo seu grupo de pesquisa, verificaram que mães reconhecem a importância da vacinação mas se colocam a questão do receio de eventos adversos como um dos fatores mais desfavoráveis à vacinação. Além disso foram observadas diferenças socioeconômicas e da relação com profissionais. Ana também trouxe estudos que mostram que crianças não vacinadas tendem a também participar menos de outras intervenções de saúde. Em relação a cenários municipais, a presença ou não de ESF, a busca ativa, a confiança e vínculo dos profissionais de saúde tendem a aumentar a cobertura vacinal, enquanto desigualdades espaciais, pobreza e os efeitos da pandemia tendem a ser associados a baixa coberturas. Além disso hesitação vacinal se relaciona a existência de barreiras práticas de acesso. Ana propõe repensar a centralidade da hesitação vacinal, por ser uma abordagem individualista e descontextualizante, bem como distinguir as barreiras do sistema da adesão individual, afirmar a vacinação como parte de um cuidado integral, na via de fortalecimento do vínculo com serviços e profissionais e a ampliação a outras intervenções essenciais. Por fim, como diretrizes nacionais, a necessidade de fortalecer a APS como pilar, a autossuficiência em imunobiológicos, a reorganização dos serviços a partir do território e a valorização e capacitação dos profissionais.

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